terça-feira, 11 de julho de 2017

A emergência da politização da intimidade na experiência de mulheres usuárias de drogas



Resumo tendo como referencial teórico o campo intelectual feminista, este artigo discute a fundamentação moral e sexista do modelo de tratamento proposto pelo serviço de atenção a usuários de álcool e outras drogas conhecido como comunidade terapêutica. A partir do acompanhamento da experiência de um grupo de mulheres em tratamento em serviço aberto (CAPS-AD), apresenta-se a possibilidade de constituição de um espaço de politização da intimidade de mulheres usuárias de drogas. Ao final, discute-se que, para além do tratamento do uso abusivo de drogas, o trabalho no grupo de mulheres potencializou o questionamento da sua condição de gênero, por meio da interpelação coletiva sobre as relações de subordinação e opressão às quais estão submetidas e do reconhecimento dos lugares de fragilidade e insuficiência historicamente a elas atribuídos. Palavras-chave: mulheres; uso abusivo de drogas; feminismo; politização da intimidade.

Abstract

The politicization of intimacy in the experience of women who use drugs.  Based on conceptual frameworks from the feminist intellectual field, this article discusses the moral and sexist foundations of the treatment model of alcohol and drug abuse known as the therapeutic community. From the analysis of the experience of a group of women in treatment at an open public service (CAPS-AD), we suggest the creation of a space for the politicization of the intimacy of the women who use drugs. Finally, we show that, beyond the drug abuse treatment, the work with these women increased the questioning of their gender condition, through the group discussion about the relations of subordination and oppression to which they are submitted and the increased awareness of the situation of vulnerability and insufficiency historically assigned to them. Keywords: women; drug abuse; therapeutic community; feminism; politicization of intimacy.

Introdução

Uma das esferas que convoca as políticas públicas de saúde a repensar seus modelos de atenção com urgência é o campo das políticas de álcool e drogas, particularmente no que tange às respostas dadas aos desafios colocados à sociedade brasileira para lidar com os problemas decorrentes do uso de substâncias. Ao mesmo tempo em que assistimos a um aumento marcante do uso de álcool e outras drogas no Brasil (Carlini, Galduróz, Noto, & Nappo, 2002; Galduróz, Noto, & Carlini, 1997), vemos que, nesse campo, conforme Carlini (1999), “continuamos tendo somente um certo vigor político (pelo menos no campo da retórica) quando se trata de discutir políticas de tratamento de dependência” (p. 10). Nesse sentido, no contexto brasileiro, o serviço conhecido como comunidade terapêutica vem desenvolvendo ações de tratamento da dependência em escalas cada vez mais crescentes, ocupando o lugar deixado vago pelas políticas públicas de álcool e drogas. Para compreendermos o surgimento das comunidades terapêuticas, devemos voltar um pouco na história da psiquiatria, segmento que inspira o campo da saúde mental em suas diversas áreas de ação. No Brasil, este campo sofreu grande influência da reforma sanitária psiquiátrica proposta por Basaglia na Itália no final dos anos 70 (Berlinck, Magtaz, & Teixeira, 2008). As várias denúncias sobre a política nacional de saúde mental, inspiradas pelas ideias da reforma sanitária, promoveram a proposição de serviços pautados na desinstitucionalização e humanização do tratamento, com vistas à reinserção social dos pacientes psiquiátricos. Todo este movimento de reforma trouxe para a saúde mental uma ampliação dos serviços, proporcionando, assim, atenção mais diversificada às especificidades dos seus usuários.


edição : Carlos Sousa

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