Resumo tendo como referencial teórico o campo intelectual
feminista, este artigo discute a fundamentação moral e sexista do modelo de
tratamento proposto pelo serviço de atenção a usuários de álcool e outras
drogas conhecido como comunidade terapêutica. A partir do acompanhamento da
experiência de um grupo de mulheres em tratamento em serviço aberto (CAPS-AD),
apresenta-se a possibilidade de constituição de um espaço de politização da
intimidade de mulheres usuárias de drogas. Ao final, discute-se que, para além
do tratamento do uso abusivo de drogas, o trabalho no grupo de mulheres
potencializou o questionamento da sua condição de gênero, por meio da
interpelação coletiva sobre as relações de subordinação e opressão às quais
estão submetidas e do reconhecimento dos lugares de fragilidade e insuficiência
historicamente a elas atribuídos. Palavras-chave: mulheres; uso abusivo de
drogas; feminismo; politização da intimidade.
Abstract
The
politicization of intimacy in the experience of women who use drugs. Based on conceptual frameworks from the
feminist intellectual field, this article discusses the moral and sexist
foundations of the treatment model of alcohol and drug abuse known as the
therapeutic community. From the analysis of the experience of a group of women
in treatment at an open public service (CAPS-AD), we suggest the creation of a
space for the politicization of the intimacy of the women who use drugs. Finally,
we show that, beyond the drug abuse treatment, the work with these women
increased the questioning of their gender condition, through the group
discussion about the relations of subordination and oppression to which they
are submitted and the increased awareness of the situation of vulnerability and
insufficiency historically assigned to them. Keywords: women; drug abuse;
therapeutic community; feminism; politicization of intimacy.
Introdução
Uma das esferas que convoca as políticas públicas de saúde a
repensar seus modelos de atenção com urgência é o campo das políticas de álcool
e drogas, particularmente no que tange às respostas dadas aos desafios
colocados à sociedade brasileira para lidar com os problemas decorrentes do uso
de substâncias. Ao mesmo tempo em que assistimos a um aumento marcante do uso
de álcool e outras drogas no Brasil (Carlini, Galduróz, Noto, & Nappo,
2002; Galduróz, Noto, & Carlini, 1997), vemos que, nesse campo, conforme
Carlini (1999), “continuamos tendo somente um certo vigor político (pelo menos
no campo da retórica) quando se trata de discutir políticas de tratamento de
dependência” (p. 10). Nesse sentido, no contexto brasileiro, o serviço
conhecido como comunidade terapêutica vem desenvolvendo ações de tratamento da
dependência em escalas cada vez mais crescentes, ocupando o lugar deixado vago
pelas políticas públicas de álcool e drogas. Para compreendermos o surgimento
das comunidades terapêuticas, devemos voltar um pouco na história da
psiquiatria, segmento que inspira o campo da saúde mental em suas diversas
áreas de ação. No Brasil, este campo sofreu grande influência da reforma
sanitária psiquiátrica proposta por Basaglia na Itália no final dos anos 70
(Berlinck, Magtaz, & Teixeira, 2008). As várias denúncias sobre a política
nacional de saúde mental, inspiradas pelas ideias da reforma sanitária,
promoveram a proposição de serviços pautados na desinstitucionalização e
humanização do tratamento, com vistas à reinserção social dos pacientes
psiquiátricos. Todo este movimento de reforma trouxe para a saúde mental uma
ampliação dos serviços, proporcionando, assim, atenção mais diversificada às
especificidades dos seus usuários.
Leia mais no link : http://www.scielo.br/pdf/epsic/v17n2/15.pdf
edição : Carlos Sousa


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