Droga
Redução de danos ajuda a vencer vício
Quando a simples abstinência deu lugar a uma abordagem
alternativa, 89% dos usuários reduziram consumo de crack, segundo pesquisa
britânica publicada em 2017
Durante muitos anos, os dependentes químicos foram
convencidos de que a única opção de tratamento para o vício era a abstinência,
geralmente associada a internações. Mais flexível, outra política, chamada
“redução de danos”, é hoje uma das principais tendências mundiais no tratamento
da dependência química.
Essa abordagem busca a redução gradativa dos prejuízos
provocados pelas drogas, mesmo que substituindo uma substância por outra menos
prejudicial à saúde. Um exemplo é a maconha, que, apesar de ser considerada por
muitos “porta de entrada” para outras drogas mais nocivas, nesse método pode
ser utilizada como “porta de saída” para auxiliar, por exemplo, dependentes de crack.
Depois de acompanhar 50 dependentes que relataram usar
maconha para atenuar a fissura, como é chamado o forte desejo de usar a droga,
o psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Programa de Atenção a Dependentes
Químicos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), observou que 68% deles
conseguiram abandonar o vício em crack e, depois, espontaneamente, a maconha.
De acordo com o especialista, essa é uma opção à tradicional
política higienista de retirar as pessoas da sociedade, como prioriza o
prefeito João Doria (PSDB) em suas ações na Cracolândia, em São Paulo. Em
operação policial no mês passado, ao menos 38 pessoas foram presas. A
prefeitura tentou, sem sucesso, autorização judicial para internar os usuários
à força, uma medida amplamente criticada por especialistas.
“A internação deve ser exceção, e não regra. Em uma situação
artificial, é fácil ficar em abstinência. O difícil é quando a pessoa está na
vida dela, com dificuldades e problemas”, argumenta o psiquiatra. Para ele, o
paciente precisa de autonomia. “Eu trato dependentes há 28 anos. Se um deles me
procura querendo ficar abstinente, eu vou trabalhar nessa linha, pois é ele que
vai dizer qual a melhor estratégia. Mas estatísticas mostram que só 30% dos
dependentes conseguem. De cada dez, só três vão alcançar a abstinência. Com os
outros, preciso de outras estratégias”, diz.
A política de redução de danos pode ser considerada um
primeiro passo. “É muito frequente começar com ela e depois o paciente terminar
abstinente”, afirma Xavier.
Um trabalho de 2017 do professor Michael-John Milloy, da
Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, revisou três estudos que
acompanharam a trajetória de 300 usuários de crack – 122 deles fumavam maconha
como forma de conter o desejo por crack. Milloy concluiu que, depois de 30
meses aplicando essa estratégia, as chances de o usuário reduzir o consumo de
crack eram 89% maiores.
Em Pernambuco, o Programa Atitude, criado em 2011 para
buscar melhorar a qualidade de vida de viciados em crack também obteve bons resultados.
Um estudo feito em 2015 com 5.714 indivíduos mostrou que 93% se identificaram
inicialmente como usuários ativos. Após o engajamento no programa, esse número
caiu para 64%, com 36% dos participantes deixando de usar a droga. Em paralelo,
cerca de 91,1% responderam que sua saúde melhorou após ingressar no programa.
Histórico. A política de redução de danos surgiu na
Inglaterra na década de 20. Durante algum tempo, despertava medo por conta das
divergências históricas entre as políticas sobre drogas oriundas do campo da
segurança e da saúde pública. No Brasil, seu surgimento coincidiu com a
epidemia da Aids da década de 80, quando usuários de drogas injetáveis da
cidade de Santos receberam seringas estéreis com o objetivo de conter o HIV.
Hoje, é uma política de saúde pública reconhecida pelo Ministério da Saúde e
protegida por legislação.
Para o coordenador executivo do Programa Institucional
Álcool, Crack da Fiocruz, Francisco Netto, a política de redução de danos mudou
a visão que imperava de que os usuários de drogas eram criminosos. “Ela não vê
como caminho a criminalização dos usuários e não condiciona o acesso ao cuidado
à abstinência, pois entende que é necessário garantir acesso a direitos e saúde
a todas as pessoas, inclusive aquelas que não conseguem parar de usar drogas de
imediato”, explica.
O psicólogo Bruno Logan, apresentador do canal RD com Logan
no YouTube, aponta que nem todos usuários têm problemas com as drogas. “E para
quem tem problema, a internação só é indicada para menos de 5% dos casos”, diz.
No Brasil, porém, o total de internações por uso de drogas supera o de
alcoolismo.
Minientrevista
Paulo César Teixeira
Ex- usuário e motorista
54 anos
Fonte : O TEMPO
EDIÇÃO : Carlos Sousa


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